sábado, 12 de setembro de 2026

O cuidado que nenhuma tecnologia consegue substituir .

Em um mundo cercado por tecnologia, o Salmo 23 revela que algumas necessidades humanas só podem ser supridas pela presença e pelo cuidado do Bom Pastor.
Ainda assim, continuamos precisando de cuidado, direção, descanso e presença.
Há uma contradição interessante no nosso tempo. 
Nunca tivemos tantos recursos para facilitar a vida e, ao mesmo tempo, continuamos enfrentando necessidades profundamente humanas que nenhuma ferramenta conseguiu resolver.
Temos acesso imediato à informação, podemos conversar com alguém que está do outro lado do mundo em segundos, encontramos respostas para quase qualquer dúvida e contamos com tecnologias capazes de organizar boa parte da nossa rotina. 
Ainda assim, continuamos precisando de cuidado, direção, descanso e presença.
Talvez porque algumas necessidades humanas não sejam problemas que a tecnologia possa solucionar.
Precisamos ser conhecidos. 
Precisamos ser ouvidos. 
Precisamos de pessoas que percebam quando alguma coisa não está bem, mesmo quando não conseguimos explicar o que está acontecendo.
É nesse ponto que uma das imagens mais conhecidas das Escrituras volta a ganhar uma profundidade que pode passar despercebida.
“O Senhor é o meu pastor.”
Davi poderia ter descrito Deus de muitas maneiras. 
Escolheu uma figura que, para sua época, representava proximidade, direção, proteção e responsabilidade.
Um pastor não apenas aponta uma direção e desaparece. 
Ele acompanha o caminho. 
Conhece o terreno. 
Reconhece os perigos. 
Sabe quando é necessário avançar e quando é necessário parar.
O Salmo 23 não apresenta uma vida sem dificuldades. 
Pelo contrário. 
Em determinado momento, Davi fala sobre o vale da sombra da morte. 
O vale faz parte da caminhada. 
O que muda é a presença.
Isso é diferente de muitas mensagens religiosas que prometem uma espécie de blindagem espiritual contra os problemas da vida. 
A Bíblia não apresenta essa promessa. 
O próprio Salmo 23 não diz que o vale deixará de existir. 
Diz que, mesmo ali, existe companhia.
Essa perspectiva também confronta uma ideia muito valorizada atualmente: a de que ser forte significa não precisar de ninguém.
Existe valor em autonomia, responsabilidade e maturidade. 
Mas ninguém foi criado para carregar sozinho todo o peso da existência. 
Reconhecer limites não é fracasso. 
Admitir que precisamos de direção não nos torna menos capazes.
Talvez o problema seja que aprendemos a cuidar de tantas coisas que esquecemos como receber cuidado.
Cuidamos da carreira, dos filhos, dos negócios, das contas, dos projetos e das pessoas que dependem de nós. 
Continuamos funcionando mesmo quando estamos cansados. 
Muitas vezes, a única coisa que não fazemos é parar para reconhecer que também precisamos ser conduzidos.
É justamente aqui que a imagem do Salmo 23 encontra sua plenitude em Cristo.
No Evangelho de João, Jesus não apenas utiliza a linguagem do pastor. 
Ele afirma: “Eu sou o bom pastor”. 
E acrescenta que o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. 
A imagem deixa de ser apenas uma metáfora sobre proteção e se torna uma revelação sobre quem Cristo é.
Ele não oferece apenas instruções para a caminhada. 
Ele se coloca no caminho.
Isso muda também a maneira como entendemos confiança. 
Confiar em Cristo não significa saber antecipadamente como cada problema será resolvido. 
Significa reconhecer que nossa visão é limitada e que a fidelidade de Deus não depende da nossa capacidade de prever o futuro.
Há momentos em que teremos clareza. 
Em outros, teremos apenas o próximo passo. 
O Salmo 23 continua atual porque não fala para uma geração específica. 
Fala para seres humanos que, em diferentes épocas, continuam experimentando medo, cansaço, perda e desejo de encontrar algum lugar de descanso.
É por isso que a sua Palavra continua atravessando séculos e gerações. 
Não porque prometem uma vida sem vales, mas porque apresentam um Pastor que não abandona o caminho quando o vale começa.
Em uma época que nos ensina a resolver tudo sozinhos, existe algo profundamente contracultural em reconhecer que precisamos ser conduzidos.
E talvez a maturidade da fé não esteja em ter todas as respostas, mas em saber em quem confiar quando elas ainda não chegaram.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. 
Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Fonte : Guiame .
Blog do Xarope via Guiame . 

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