Trajetória do governador eleito reúne declaração de ser da "família Gordo do Aurá" - acusado de liderar o tráfico e de assassinatos - que até hoje não se sabe como foi assassinado e de rupturas com Pioneiro, Érick Monteiro e o grupo Barbalho .
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| Um “novato” que deixou amigos e aliados no caminho pelo poder. |
Daniel Santos venceu a disputa pelo Governo do Pará, mas a montagem de sua administração recoloca em discussão o caminho percorrido até a eleição.
O político que se apresentou como alternativa ao grupo de Helder Barbalho construiu parte de sua carreira ao lado de lideranças que posteriormente se tornaram adversárias.
Agora, precisará ampliar sua sustentação parlamentar e explicar os critérios para escolher colaboradores, incluindo nomes de tucanos e barbalhistas em órgãos de controle ou de aliados mencionados em investigações.
A dimensão desse desafio aparece na composição da Assembleia Legislativa: PL e Podemos, principais partidos de sua aliança, elegeram 10 dos 41 deputados estaduais.
A vitória no Executivo, portanto, não entregou a Daniel uma maioria parlamentar própria e isso começa a ser discutido e incomodar quem não acreditava que ele seria pragmático em atrair aliados que deram suporte e apoio ao poder até então estabelecido pela família barbalho, que depois de anos aliado, passou a contrapor, há cerca de três anos atrás.
Um “novato” que deixou amigos e aliados no caminho pelo poder
A trajetória de Daniel começou em Ananindeua.
Eleito vereador pelo PSDB em 2012 e reeleito em 2016, Daniel chegou à Assembleia Legislativa em 2018 e presidiu a Casa no biênio 2019–2020.
Em 2020, conquistou a prefeitura pelo MDB; em 2024, reelegeu-se pelo PSB.
A candidatura estadual de 2026 ocorreu pelo Podemos, com apoio do PL e de Flávio Bolsonaro.
Segundo relatos da “Repíblica de Ananindeua”, Daniel já chegou a admitir que foi “cria” e só entrou na política após convite apoio do ex-prefeito de Ananindeua, Manoel Pioneiro.
Na convenção de sua reeleição, em julho de 2024, Daniel afirmou representar a “continuidade do mesmo grupo político que já estava, que era do pioneiro”, ao mesmo tempo em que defendia mudanças na administração municipal.
A declaração, reproduzida pelo PSB nacional, registra como o então prefeito apresentava sua origem política antes do rompimento de quem hoje – nos bastidores – o chama de “ingrato, sem palavra e ambicioso sem escrúpulos”.
Seu cumpadre e ex-amigo e colaborador, o deputado estadual reeleito em 2026, Érick Monteiro também participou dessa construção. Vice-prefeito de Daniel em sua primeira gestão municipal, integrou o núcleo político que sustentava o prefeito.
A relação se deteriorou durante a definição da chapa municipal de 2024. Segundo a cobertura do EPOL, a escolha de Hugo Atayde frustrou expectativas de outros integrantes do grupo, entre eles Érick, cuja esposa, Giselle, havia sido apresentada como alternativa. Pioneiro e Érick acabaram apoiando Igor Normando no segundo turno em Belém, enquanto Daniel apoiou Éder Mauro.
A antiga aliança tinha manifestações públicas de solidariedade.
O EPOL registrou que Érick foi à frente do condomínio onde residiam integrantes do grupo para defender Daniel e Ed Wilson durante uma operação relacionada a suspeitas envolvendo o Hospital Santa Maria.
Outra relação documentada remonta à campanha de 2018: a aproximação com Deivite Wener Araújo Galvão, o Gordo do Aurá. Em publicação daquele ano, o blog AS FALAS DA PÓLIS reuniu registros de apoio político entre os dois, inclusive durante caminhada no bairro do Aurá, onde o governador eleito, Daniel Santos, dizia que fazia parte da “família Gordo do Aurá”.
O blof também registrou a adesão de Daniel, então eleito deputado pelo PSDB, à campanha de Helder Barbalho no segundo turno, sendo expulso do partido que até então fazia oposição aos barbalhos.
Gordo do Aurá foi preso em 2018, sob acusações relacionadas ao tráfico e ao crime organizado, e assassinado em 2019.
Seu nome também foi dado a uma praça entregue na administração de Daniel, em 2023.
A relação com Helder também deixou manifestações públicas.
Em 2023, durante evento do PSDB de Ananindeua, Daniel disse ter orgulho de pertencer ao MDB e fez referência ao “partido do nosso governador Helder Barbalho”.
Na mesma ocasião, valorizou a trajetória tucana no município.
O registro contrasta com a posição de enfrentamento adotada posteriormente.
O acervo do EPOL também registra elogios anteriores de Daniel à gestão de Helder e à atuação de Hana Ghassan.
Na campanha estadual, a relação deu lugar ao confronto.
No debate da TV Liberal, em 29 de setembro, Hana questionou o adversário sobre Gordo do Aurá; Daniel respondeu dirigindo críticas à administração estadual e à concessão dos serviços de água.
A mudança de posição é parte relevante da trajetória, embora frases antigas atribuídas a ele devam ser reproduzidas literalmente apenas quando acompanhadas do registro correspondente. Histórico das alianças e cobertura do debate.
As controvérsias ultrapassam as alianças.
Em agosto de 2025, Daniel foi afastado cautelarmente da prefeitura no contexto da Operação Hades, que apurava suspeitas de fraudes em licitações e outros crimes.
No dia seguinte, uma decisão do STJ permitiu seu retorno.
Ao comentar a medida nas redes sociais, declarou ter sido afastado “injustamente”.
O retorno ao cargo não significou julgamento de inocência ou culpa sobre as acusações. Leia em Cobertura do EPOL sobre a decisão e a manifestação de Daniel.
O caso teve novos movimentos em março de 2026: Alexandre de Moraes suspendeu temporariamente procedimentos para examinar questionamentos da defesa sobre a regularidade da investigação. Posteriormente, foi noticiada a rejeição do pedido de extensão da nulidade à Hades, com a retirada da suspensão.
A defesa sustentava violação ao princípio do promotor natural.
Esse histórico exige distinguir decisões processuais de conclusões sobre o mérito das acusações.
Leia mais em Manifestação da defesa e suspensão e desdobramento posterior.
A escolha dos colaboradores oferece outro parâmetro para avaliar a promessa de mudança.Mesmo sob investigação por parte do Ministério Público, Ed Wilson Dias e Silva já foi anunciado como coordenador-geral da transição.
Essa função está confirmada, diferentemente dos cargos no futuro secretariado que circulam nas conversas políticas.
Há um registro documental relevante da trajetória do homem que coordena a transição que escolherá os futuros secretários estaduais e demais ordanadores de despesa do próximo governo do Pará: o Acórdão 27.008 do Tribunal de Contas dos Municípios julgou irregulares as contas de 2004 do Fundo Municipal de Saúde de Muaná, sob responsabilidade de Ed wilson.
A decisão determinou recolhimento de aproximadamente R$ 1,786 milhão, com correção, referente a recursos sem prestação de contas, além de sanções.
Trata-se de uma decisão de controle de contas, que ainda não deve ser considerada como condenação criminal. Porém, a investigação jornalística não encontrou decisão que neguem ou confirmem eventual quitação ou revisão da decisão judicial.
Entre os nomes cotados – ou especulados – Éder Mauro apareceu como possibilidade para a Segurança Pública e João Salame para a Casa Civil. Miguel Gualberto foi mencionado para o Iterpa; também foram noticiadas conversas envolvendo Zequinha Marinho e técnicos ligados a Simão Jatene. As referências até então estão no campo das especulações, sem confirmação das nomeações, conforme noticiamos.
No caso de Éder Mauro, existe uma condenação documentada pelo STF: em 2020, a Primeira Turma o condenou por difamação contra Jean Wyllys, pela divulgação de vídeo adulterado.
A pena de detenção foi substituída por prestação pecuniária.
É um antecedente específico e verificável, cuja natureza deve ser descrita com precisão.
João Salame também teve seu nome associado a investigações. Contudo, o histórico inclui o arquivamento, em 2022, de um inquérito civil sobre suposto enriquecimento ilícito, segundo reportagem que identifica o procedimento e relata ausência de comprovação de improbidade.
Outro nome citado para a administração é Alex Hage, cotado para a Adepará.
O EPOL registrou que ele foi detido no primeiro turno, em episódio relacionado a material de campanha em local de votação.
A reportagem informou não ter obtido resposta de Hage até sua publicação.
A ocorrência não equivale a condenação.
Na Assembleia, o desafio será transformar alianças em votos para projetos e orçamento. MDB e PT elegeram, respectivamente, 13 e três deputados estaduais.
Entretanto, Daniel dispõe de outras bancadas com as quais negociar: não há uma obrigação aritmética de incorporar esses dois partidos à base.
A possibilidade de atrair parlamentares ligados ao antigo governo é uma hipótese política plausível, não um movimento já comprovado individualmente, conforme relatado em Distribuição das cadeiras na Alepa.
Em Brasília, MDB e PT somam oito dos 17 deputados federais eleitos pelo Pará. Entre eles estão Jader Filho, Priante, Cássio Andrade, Dilvanda Faro e Airton Faleiro.
O diálogo com essa representação poderá ser importante para projetos e articulações federais, mas deputados federais não compõem a maioria que vota o orçamento estadual. São duas frentes distintas de negociação.
Leia em Lista dos deputados federais eleitos.
Chamar antecipadamente esse processo de “cooptação” pressupõe conhecer os métodos e as contrapartidas.
O ponto a fiscalizar será se as adesões ocorrerão por acordos públicos sobre políticas e prioridades ou por distribuição de espaços sem critérios transparentes.
Até aqui, as fontes consultadas não demonstram compra de apoio parlamentar.
A eleição presidencial acrescenta uma variável.
Foram ouvidas 2.520 pessoas entre 20 e 22 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Há aproximação numérica, mas a oscilação não permite tratar a reeleição de Lula como resultado provável ou assegurado.
Se Lula vencer, Daniel terá de conciliar seu compromisso eleitoral com o PL e a relação institucional com um governo federal comandado pelo PT.
Lideranças paraenses próximas ao presidente poderão manter capacidade de interlocução, mesmo fora do Executivo estadual.
Esse é um cenário de negociação possível, não evidência de acordo já firmado.
A trajetória de Daniel mostra que antigas alianças podem se converter em antagonismos e que adversários podem voltar à mesa de negociação.
A cobrança sobre o governo que começa deverá alcançar tanto os compromissos assumidos para formar maioria quanto o histórico e os critérios de escolha de seus integrantes.
A promessa de mudança será medida também pela transparência dessas decisões e a coerência que pode ser cobrada por quem já esteja e contou com ajuda da família Barbalho e depois rompeu – como o próprio Daniel, Éder Mauro, Zequinha Marinho e tantos outros, que agora se apresentam como rivais.
Fonte : O Estado do Pará On Line .
Blog do Xarope via O Estado do Pará On Line .

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