Maior alteração foi de branco para pardo, com 308 casos.
| Calçadas perto de seções eleitorais da Tijuca, no Rio, durante votação de 1º turno da eleições de 2022 — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
Dados são parciais e consideram os 17.413 registros disponíveis às 19h30 de 12 de agosto; prazo de envio de informações à Justiça Eleitoral termina às 19h do dia 15.
786 candidatos registrados para as eleições de 2026 têm informação de cor ou raça diferente da que constava nos dados da Justiça Eleitoral em 2022.
Os casos representam 4,5% das 17.413 candidaturas registradas até o momento, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisados pelo g1 e extraídos às 19h30 de quarta-feira (12).
🔎 Os dados ainda podem mudar. Partidos, federações e coligações têm até as 19h de 15 de agosto, este sábado, para apresentar os pedidos de registro.
A mudança mais frequente nestas eleições foi de branca para parda, identificada em 308 candidaturas.
O caminho inverso, de parda para branca, aparece em 262 casos. Juntas, as duas alterações somam 570 registros, ou 72,5% de todas as diferenças encontradas.
Flávia Rios, socióloga, professora da Universidade de São Paulo e pesquisadora do núcleo Afro-Cebrap, explica que as mudanças nas declarações de cor ou raça já foram observadas em eleições anteriores.
Ela lembra que o TSE passou a coletar essa informação em 2014.
“Embora a gente tenha perguntas sobre cor em vários documentos brasileiros desde o Censo de 1872, a pergunta sobre cor no TSE é relativamente recente.
Ela é de 2014, quando começa a ser introduzida nos formulários a chamada autodeclaração, seguindo as categorias do IBGE.
Desde então, essa movimentação tem chamado a atenção, sobretudo nas eleições subsequentes.
Essa oscilação não é nova.
Se a gente olha para as eleições anteriores, comparativamente, também houve oscilações nessa mesma direção, de pessoas que aparecem uma hora como brancas, outra hora como pardas, ou vice-versa.”
Em 2022, levantamento do g1 identificou 2.510 candidatos que haviam mudado a autodeclaração de cor ou raça, o equivalente a nove em cada cem candidaturas registradas naquele pleito.
Na ocasião, 938 mudanças, mais de um terço do total, eram de candidatos que haviam se declarado brancos em 2020 e passaram a se declarar pretos ou pardos em 2022.
Ana Cláudia Santano, doutora em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidade de Salamanca e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, explica que uma mudança na autodeclaração, isoladamente, não indica que houve algo errado.
“Quando a gente fala de alteração da autodeclaração, ela, por si só, não supõe nada errado, porque essa alteração pode se dar por muitas razões, dentre elas erro de preenchimento no registro de candidatura. O erro humano acontece.
Também pode ser uma tomada de consciência por parte da pessoa; ou alguma decisão motivada por razões pragmáticas, para tentar aquele financiamento específico das pessoas negras”.
Rios aponta duas hipóteses para explicar as divergências.
A primeira envolve a forma como os registros são preenchidos e a mediação das estruturas partidárias.
“Apesar de ser autodeclaração, algumas pessoas que têm estudado mais a fundo a dinâmica de inscrição no interior dos partidos apontam que, às vezes, não é o próprio candidato que faz a classificação.
Às vezes existe uma dinâmica interna partidária, e isso acaba sendo uma heteroclassificação, no sentido de que não perguntam ao candidato e simplesmente colocam.
Às vezes, a burocracia partidária faz a mediação e, por isso, pode gerar essas inconsistências: uma hora está de um jeito, outra hora está de outro.”
A segunda hipótese é a de que a mudança seja feita de forma intencional para tentar obter recursos destinados às candidaturas negras.
A socióloga ressalta, porém, que os dados não permitem determinar se houve essa intenção.
O g1 questionou o TSE sobre a possibilidade de as diferenças nas autodeclarações decorrerem de erros de cadastro e sobre os procedimentos adotados pelo tribunal nesses casos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Maioria passou a se declarar parda
Entre os 786 candidatos analisados, 419, ou 53,3%, se declararam pardos em 2026.
Outros 275 se declararam brancos, 76 pretos, 9 indígenas e 7 amarelos.
Veja como ficaram as autodeclarações em 2026 até o momento:
Parda: 419 candidatos, ou 53,3%;
Branca: 275, ou 34,9%;
Preta: 76, ou 9,6%;
Indígena: 9, ou 1,1%;
Amarela: 7, ou 0,9%.
Considerando pretos e pardos como pessoas negras, 313 candidatos passaram de uma autodeclaração branca ou amarela em 2022 para preta ou parda em 2026.
No sentido inverso, 269 passaram de preta ou parda para branca ou amarela.
Outros 182 mudaram dentro das categorias consideradas negras: 108 passaram de preta para parda e 73, de parda para preta.
Rios aponta que essas oscilações já existiam antes das políticas raciais e acompanham transformações no jeito como os brasileiros percebem a própria cor ou raça.
Fonte : g1 — São Paulo
Blog do Xarope via g1 - São Paulo .
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