quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Médica troca centro cirúrgico por nova carreira na internet após diagnóstico de autismo aos 33 anos de idade .

Krícis Heather Torres levou mais de dez anos para identificar a causa do esgotamento que sentia, até diagnóstico. 

Neuropsicóloga da USP explica por que o diagnóstico costuma demorar mais em mulheres.
Krícis Heather Torres sempre soube o que queria ser. 
Entrou na faculdade de medicina determinada a virar cirurgiã, formou-se em cirurgia geral em 2020 e começava a se preparar para uma subespecialização em urologia quando o próprio corpo passou a dar sinais que ela não sabia nomear.
Cansaço que não passava com descanso. 
Irritação com barulhos, cheiros e texturas que os colegas nem notavam. 
Uma sensação de estar sempre no limite, mesmo fazendo o que sempre quis fazer.
Foi só em maio deste ano, aos 33 anos, que ela recebeu o diagnóstico que buscava havia mais de uma década: autismo, nível 1 de suporte. Antes disso, já havia sido tratada para depressão e ansiedade, trocado de cidade, de médicos e de remédios — sem que ninguém identificasse a causa.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado, principalmente, pelas dificuldades em comunicação e interação social, e presença de padrões de movimentos restritos e repetitivos. No entanto, como um espectro, há diferentes níveis. 
No caso da médica, ela está na primeira faixa dessa lista.
O nível 1 exige apoio pontual, não constante. 
Nele, a dificuldade de interação social é real, mas discreta, assim como os desafios para lidar com mudanças de rotina e organizar tarefas do dia a dia.
Depois do diagnóstico, Krícis entendeu que estava no limite e que, até aqui, o centro cirúrgico, que sempre foi um lugar de realização e conforto, não é mais esse espaço.
“Hoje em dia eu falo que eu tô quebrada, porque é como eu sinto. 
Eu sempre fui muito boa no que eu fiz, eu fui excelente na faculdade de medicina. 
Eu fui excelente na residência. 
Só que infelizmente eu não tô conseguindo fazer o que sempre sonhei porque eu preciso me cuidar”, explica.
O diagnóstico do autismo costuma ser associado à infância, mas a descoberta em adultos vem se tornando mais frequente — e mulheres enfrentam um caminho mais longo.
Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, 47% delas recebem algum outro diagnóstico antes de identificar o autismo, contra 27% dos homens. 
Ela explica que mulheres acabam sendo mais negligenciadas, mas que também mascaram mais os sintomas, porque internalizam os sofrimentos.
Hoje, Krícis decidiu aposentar o bisturi definitivamente. 
Decidiu que vai usar sua bagagem e sua nova vida, como descrever, para compartilhar conteúdo sobre saúde nas redes sociais como influenciadora. 
"Quero tentar uma vida diferente".
  • Kricis usava fones de ouvido no centro cirúrgico por causa da sensibilidade ao ruído — Foto: Arquivo Pessoal

    Kricis usava fones de ouvido no centro cirúrgico por causa da sensibilidade ao ruído — Foto: Arquivo Pessoal .

  • Fonte : g1
    Blog do Xarope via G1 .

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