segunda-feira, 2 de março de 2026

CARGILL DESISTIU DE INVESTIR R$ 1,2 BILHÃO NO PARÁ APÓS INVASÃO POR INDÍGENAS EM SANTARÉM

Em artigo publicado neste final de semana em dois dos dos jornais mais influentes do país, O Globo e Folha de S.Paulo, o jornalista Élio Gaspari revelou um prejuízo econômico severo para o oeste do Pará.
Cargill ocupada por indígenas em Santarém no mês passado. Foto: reprodução
Segundo o colunista, a multinacional Cargill decidiu transferir para o Equador um projeto de US$ 250 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão) destinado ao cultivo de cacau na região, motivada pela “exposição da insegurança jurídica” gerada por recentes conflitos em Santarém.
De acordo com Gaspari, o problema começou em agosto de 2023, quando o governo federal editou o decreto 12.600, incluindo trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. 
A medida visava estudos para concessão de serviços como dragagem, mas enfrentou resistência de povos indígenas que combatiam o que chamavam de “venda desses rios”.
Decreto 12.600 e estudo
O jornalista destaca que, embora o governo alegasse pretender “apenas estudar a opção”, o decreto mencionava a dispensa de licenciamento ambiental, o que elevou a tensão. 
Gaspari observa que a dragagem do leito do Tapajós poderia revolver mercúrio deixado pelo garimpo ilegal, “contaminando as águas”.
A escalada de tensão culminou no dia 21 de fevereiro, quando manifestantes invadiram o terminal da Cargill em Santarém. 
Gaspari relata que “42 funcionários abrigaram-se por três horas em salas trancadas” enquanto um manifestante ameaçava destruir as instalações.
O colunista ressalta que a empresa acabou sendo o alvo principal, embora “nada tenha a ver com o estado presente do debate em torno do decreto”. 
Em resposta à pressão das invasões, o governo revogou a norma no dia 23 de fevereiro. 
Para Gaspari, se em Brasília o caso pareceu resolvido com a revogação, “faltou combinar com a Cargill”.
Fuga de capital para o Equador
O projeto perdido para o Pará envolvia o financiamento de plantações de cacau, inclusive em áreas de pastagens degradadas, com potencial para gerar milhares de empregos. 
Gaspari afirma que, diante dos acontecimentos em Santarém, “em questão de dias o projeto do cacau amazônico migrou para o Equador”.
A análise do jornalista aponta que o recuo do governo e a violência das ocupações sinalizaram uma instabilidade que afastou o investimento que beneficiaria, inclusive, as populações originárias da região.
Leia a íntegra do artigo do jornalista:
Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. 
A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. 
Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.
Desde a assinatura do decreto por Lula, uma dezena de povos indígenas combatem o que chamam de venda desses rios. 
Assim como sucede com as eventuais reservas de petróleo da Margem Equatorial, o governo diz que pretende apenas estudar a opção. 
Fica combinado assim. 
O decreto fala em dispensa de licenciamento ambiental. 
(O garimpo ilegal poluiu com mercúrio o leito do Tapajós e uma dragagem revolveria a terra, contaminando as águas.)
Passou o segundo semestre, o caso parecia ser apenas uma guerra de palavras.
No dia 22 de janeiro, a encrenca mudou de aspecto: indígenas e seus aliados bloquearam o acesso de caminhões ao terminal da Cargill no porto de Santarém. 
A Cargill opera em 70 países e é uma das maiores negociantes de grãos do mundo. 
Em 2021, exportou 6 milhões de toneladas por esse terminal.
Os manifestantes pediam a revogação do decreto 12.600. 
(A Cargill nada tem a ver com o estado presente do debate em torno do decreto de agosto.) 
Seguiram-se outros bloqueios. 
Em 13 de fevereiro, o Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar à empresa dando 48 horas para que o bloqueio fosse encerrado. Palavras ao vento. Seis dias depois, uma barcaça da Cargill foi interceptada.
Na madrugada do dia 21 de fevereiro, os manifestantes dobraram a aposta e invadiram o terminal da Cargill, 42 funcionários abrigaram-se por três horas em salas trancadas. 
Um manifestante exaltado disse, num vídeo, que destruiria instalações do terminal.
Não foi preciso. 
Na segunda-feira (23), o governo revogou o decreto 12.600 e seus efeitos. 
Mandou parar tudo, inclusive as análises neutras da hidrovia do rio Tapajós e de trechos dos rios Madeira e Tocantins.
Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. O terminal da Cargill foi invadido, o decreto foi revogado e todos passaram a viver na paz da Amazônia.
Faltou combinar com a Cargill. 
A empresa financia projetos para a plantação de cacau no Pará, inclusive em áreas de pastagens degradadas. 
Há um estudo para que ela venha a investir até US$ 250 milhões no cultivo de cacau na região, gerando milhares de empregos e beneficiando populações originárias. 
(Nos últimos cinco anos, a Cargill investiu no Brasil mais de R$ 8 bilhões.)
Diante dos acontecimentos de Santarém, com a exposição da insegurança jurídica que ele produziu, em questão de dias o projeto do cacau amazônico migrou para o Equador.
Fonte : Blog do Jeso
Blog do Xarope via Blog do Jeso

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